Laura Monteiro (7.ºF)
2.º Prémio (Escalão C) - 8.º Concurso de Contos - Casa do Educador do Seixal (2026)
Tema: E Nós Vimos um Eucalipto a Arder
Sofia vivia numa aldeia no norte de Portugal. Tinha doze anos e adorava correr pelos campos verdes. Crescera ali, naquela aldeia escondida, depois de os seus pais terem decidido abandonar a vida agitada da cidade, procurando a tranquilidade e a paz daquele local. Adorava ouvir o cantar dos galos e o sino da igreja que tocava todos os domingos. Adorava estar no meio da natureza, passava as tardes a correr pelos campos, com os bolsos cheios de pedrinhas, pequenos ramos e folhas secas de diferentes formas, que colecionava para o seu herbário. Os seus cabelos encaracolados tinham madeixas loiras que pareciam ter sido pintadas pelo sol. Para ela, a aldeia era um lugar mágico que partilhava com os seus melhores amigos, o Pedro e a Tuíla.
Sofia conhecia Pedro desde sempre. Mal olhava para os seus olhos cor de avelã, que pareciam guardar mil ideias ao mesmo tempo, percebia logo que viria aí uma nova aventura. Sofia adorava os seus amigos, pois com eles tinha aprendido muito. Com Pedro, que estava sempre com um sorriso contagiante e que parecia que nada o derrubava, mesmo quando as coisas pareciam desabar, aprendera o valor do otimismo e do espírito positivo. Pedro era aventureiro e impulsivo, saía muitas vezes à noite para observar os pirilampos e, de manhã bem cedo, os seres elementais, que acreditava existirem: gnomos, elfos, fadas e salamandras. Explicava às amigas que cada um estava associado a um elemento da natureza e dizia que já tinha visto uma fada azul. Tuíla vivia na aldeia há cinco anos, tinha vindo do Brasil, do Mato Grosso, com os seus pais. Como os seus avós maternos eram indígenas, misturava português com palavras em tupi, uma língua morta, mas que deixou diversas palavras utilizadas ainda hoje. Com Tuíla, tinha aprendido sobre a importância de agradecer à terra antes de colher qualquer recurso, sobre os ciclos da Lua, os quais ela dizia que governavam os ciclos da plantação e da vida e tinha aprendido também a entrançar fibras de plantas para fazer cestos e redes. Antes de apanhar uma fruta, Tuíla pedia permissão para a colher e agradecia, pois acreditava que havia uma relação de troca e não de posse. Gostava de correr descalça pelos campos, atrás de borboletas e pássaros, chamava aos pássaros Mainu, palavra tupi para beija-flor, que não existe em Portugal.
A aldeia, composta por mais ou menos 80 habitantes, tinha casas feitas de pedra escura, algumas rodeadas de muros e videiras, com caminhos estreitos e feitos de pedras irregulares. Para lá chegar era necessário atravessar o vale e passar pelo eucaliptal. Este era um dos lugares favoritos dos três amigos. Ali, havia sempre um cheiro agradável, fresco e mentolado, que parecia transmitir-lhes energia. Os eucaliptos pareciam colunas altas e esguias, como sentinelas que baloiçavam ao vento, parecendo tomar conta da entrada da aldeia. Havia um tapete macio de folhas e tiras de casca que se iam libertando das árvores e os amigos brincavam com elas, fingindo serem espadas, pois eles eram também os protetores do local. Atrás da pequena igreja existia uma floresta e ali não havia árvores direitinhas, mas troncos retorcidos e ramos cheios de nós. Para eles também era um lugar mágico e brincavam junto dos carvalhos, castanheiros e sabugueiros-brancos, cujas copas pareciam entrelaçar-se como um teto, deixando pouca luz do sol quente atravessar. As folhas secas estalavam à medida que as pisavam. Alguns troncos caídos serviam de pontes improvisadas e eles colecionavam bolotas e ouriços dos castanheiros, vendo quem conseguia apanhar mais. Mas numa tarde quente de verão, o céu escureceu de repente. Um incêndio tinha atingido uma área vizinha. Sofia, Pedro e Tuíla correram para a aldeia e Sofia gritou:
— “Ajudem, ajudem! Um fogo começou… e nós vimos um eucalipto a arder!”
Rapidamente todos os habitantes ficaram preocupados com tal acontecimento. Sabiam que numa questão de pouco tempo o incêndio poderia chegar à aldeia e tinham de estar preparados.
Enquanto os adultos se preparavam para o pior, Pedro começou a pensar nos seres elementais e decidiu que tinha de lhes pedir auxílio. Eles eram espíritos da natureza e saberiam o que fazer. Ao pensar no incêndio, compreendeu que as salamandras poderiam ajudar, já que elas são os seres elementais do fogo. Lembrou-se que habitam em vulcões, no calor do sol e nas chamas, sendo considerados os seres mais poderosos devido ao seu temperamento forte e vibrante. Chegou à conclusão de que as salamandras, associadas ao fogo, estariam agitadas e descontroladas. Disse às amigas que tinham de fazer alguma coisa para travar aquele incêndio e avisou-as para irem ao encontro dele, na floresta. Foi a casa, recolheu cinzas da lareira e depois correu até ao local combinado e espalhou as cinzas, simbolizando um fogo já apagado. Já tinha lido sobre isso nos livros da biblioteca itinerante, que ia à aldeia a cada mês, e achava que fazendo esta cerimónia poderia apaziguar o espírito das salamandras. As amigas estavam à sua espera e ele pediu-lhes ajuda para espalharem o resto das cinzas. Começou a cantar uma melodia em voz baixa, tentando hipnotizar as labaredas, que ameaçavam ao longe, enquanto invocava as salamandras. Pediu-lhes que baixassem a intensidade do fogo, mas o som de árvores a estalar ao longe e o vento pareciam abafar a sua voz. As salamandras, em vez de adormecerem, como pretendido, pareciam ter ficado ainda mais furiosas. Pedro não perdia a esperança, mas estava incrédulo pois as salamandras pareciam estar a ganhar força, ignorando os seus pedidos, parecia que a natureza não o estava a ouvir. Sofia tentou confortá-lo, ao ver o seu semblante triste. Ficou preocupada, pois desta vez ele parecia ter sido derrubado.
Depois disto, Sofia correu ao encontro da avó e contou-lhe o sucedido. Decidiu que também ela tinha de tentar fazer algo para travar aquela luta. Pediu-lhe ajuda, pois precisava de rezar e estava com medo de não saber fazê-lo. A avó sorriu, Sofia viu-lhe as rugas que lhe marcavam o rosto e o seu olhar terno.
— Não há propriamente uma fórmula para rezar, Sofia. Rezas, seguindo e escutando o teu coração. Encontra um lugar tranquilo, foca-te no que desejas, pedindo com sinceridade.
— Existe algum santo da chuva? Nós precisamos de chuva…
Sofia sentia vontade de chorar. Não sabia o que fazer para travar aquele fogo, que avançava, querendo destruir tudo o que ela amava e sentia que aquele fogo lhe dominava também o coração. Era uma dor pesada e densa, que lhe esmagava o peito e perturbava profundamente. A avó acariciou-lhe a cabeça e respondeu que São Pedro era associado, na religião católica, à chuva, como o controlador do tempo, dizia-se que podia trazer chuvas ou pará-las.
São Pedro?! Sofia arregalou os olhos. Farta de ouvir falar em São Pedro e nunca alguma vez tinha associado a este Santo esse enorme poder. Um Santo da meteorologia. Decidiu que tinha mesmo de conversar com ele. Procurou um lugar tranquilo, tal como a avó lhe aconselhara. Ajoelhou-se e dispôs-se a rezar… ficou hesitante, tinha medo de não saber rezar, mas a avó havia-lhe dito para seguir o seu coração e então foi o que fez. Com toda a concentração, dispondo as mãos em frente ao coração e fechando os olhos, invocou São Pedro e a sua ajuda, pedindo-lhe que fizesse chover, que trouxesse a bênção da chuva para aqueles terrenos que ardiam de forma assustadora e incessante.
Nessa noite na aldeia ninguém conseguiu descansar. Tinham estado todos de vigília e atentos ao avançar do fogo, sabendo que teriam de abandonar as suas casas se ele passasse a linha do vale. Ninguém o queria fazer, mas a sobrevivência é instinto. Os que tinham animais já tinham delineado um plano para os retirar, ninguém ficaria para trás.
Mal Sofia acordou, dirigiu-se à janela, esperando um milagre, esperando nuvens cinzentas carregadas de água, mas apenas vislumbrou nuvens cinzentas carregadas de fumo e sentiu um cheiro intenso a queimado. Tinha acordado várias vezes durante a noite, mas o sono e o cansaço tinham vencido e deixara-se dormir, sonhando intensamente com nuvens desafiadoras no céu, que pareciam estar numa corrida olímpica e que acabavam por chocar umas contras as outras. Sentiu-se desesperar. Teria rezado mal? Não teria orado em condições? Inspirou profundamente. Talvez São Pedro estivesse ocupado noutras localidades do país, pensou. Infelizmente havia muitos fogos a decorrer e São Pedro estaria, certamente, a apagá-los, como os heróis sem capa, que arriscavam as suas vidas para fazer frente àquele inferno na terra.
Clack! Sofia assustou-se e quase caía da cama. Olhou para a janela do quarto e compreendeu que era o Pedro, com a sua forma típica de a acordar, atirando uma pequena pedra ao vidro, o seu sinal secreto para começar mais um dia de aventuras. Levantou-se, abriu a janela e lá estava ele, com o cabelo um pouco despenteado e um sorriso tímido e com os seus olhos a transparecer o otimismo que o caracterizava.
— Sofia, quando acabares de tomar o pequeno-almoço vai ao eucaliptal. A Tuíla espera lá por nós.
Sofia comeu rapidamente alguma coisa e correu em direção aos amigos. Tuíla aguardava os. Na terra estavam colocados alguns itens, pedras dispostas em círculo e no centro uma pena de uma ave, variadas sementes e folhas de carvalho e eucalipto. Sofia compreendeu rapidamente que deveriam simbolizar a conexão com a natureza. Olhou atentamente para a amiga. A sua face morena estava pintada com padrões que imitavam gotas de chuva, os seus longos cabelos negros e lisos estavam soltos e sobre a testa tinha uma tiara feita de sementes. Tuíla tirou do bolso uma caixinha. Abriu-a e pintou os rostos dos amigos com os mesmos padrões de gotas de chuva, do outro bolso retirou duas tiaras e colocou-as também sobre as suas testas. Abraçou os dois e explicou-lhes que que iriam fazer juntos a dança da chuva.
— A natureza, no sítio de onde venho, não é apenas um recurso, mas faz parte da nossa existência. Todos fazemos parte do planeta. Temos rituais sagrados de conexão e hoje vamos fazer um em conjunto. Concordam?
Pedro e Sofia anuíram. Abraçaram um ritual que desconheciam, mas estavam convictos de que poderia resultar. Tuíla traçou um círculo no solo seco com os pés descalços, um círculo sobre o anterior círculo de pedras. Ergueu os braços em direção ao céu cinzento e cheio de fumo e começou o ritual. “Nhanderú, ouve os teus filhos”. “Traz a chuva, Deus, traz a chuva!”. Começou a cantar numa língua que nem Sofia nem Pedro entendiam, movendo-se em círculos lentos, parecendo imitar o vento. Os seus braços moviam-se, erguendo-se em direção ao céu, como se invocasse algo, os seus pés batiam no chão para chamar os espíritos da terra. Pedro e Sofia juntaram-se a ela, seguindo o seu ritmo. Deixaram-se conduzir pelos sons estranhos que ela emitia e deixaram-se embalar pelos movimentos serpenteantes, girando como um redemoinho, saltando e rodopiando. Imitaram a amiga e invocaram também o Deus que Tuíla chamava. Ficaram emocionados pelo ritual que haviam feito, pela partilha e pelo desejo comum de terminar com o fogo.
Mas o incêndio avançava, implacável, sem querer saber de cerimónias, preces divinas ou rituais sagrados. No terceiro dia avançou em direção ao eucaliptal, perante o olhar atónito dos que viviam na aldeia. Rapidamente começou a consumir as árvores. Agora não era só a visão distante de labaredas alaranjadas, era também um crepitar, um rugido que assustava e que anunciava a destruição, a morte. Mas subitamente o vento que o alimentava mudou completamente de direção e isolou os focos. O rugido calou-se aos poucos, deixando um silêncio pesado.
Os três amigos dirigiram-se ao eucaliptal quando os pais assim o autorizaram. Tinham decorrido algumas semanas. O chão estava coberto de cinzas brancas, folhas queimadas, sustendo ainda algumas árvores enegrecidas. Nada tinha caído do céu, nem uma gota. De repente ouviram Tuíla gritar, olharam para ela e viram que apontava para o chão, com os olhos bem abertos. Viram então um rebento tímido, verde, minúsculo, que brotava entre as cinzas. E mais à frente outro. Sofia lembrou-se da aula de ciências naturais e relembrou aos amigos que a professora tinha explicado que no subsolo da floresta se esconde uma espécie de internet de árvores, uma rede que as conecta a todas, partilhando água, nutrientes e até avisos. Partilhou também que a professora tinha falado sobre uma investigadora que alegava que as árvores mais antigas, as anciãs, exerciam uma função de proteção das descendentes. As árvores-mães tinham ajudado as mais novas, eram brotos das raízes profundas. As raízes dos eucaliptos tinham ajudado os mais pequeninos a sobreviver, que renasciam com esperança. Nas semanas seguintes mais rebentos surgiram. Sob a terra, a grande rede continuava a agir, com fios mágicos, numa grande teia de amizade. Um coração pulsava entre as raízes sobreviventes, mostrando que, mesmo após a destruição, é possível renascer.