A Minha Língua É o Teu Sorriso

Matilde Ramalho (9.ºC)

2.º Prémio (Escalão D) - 5.º Concurso de Poesia Zélia Santos
Tema: A Minha Língua É o Teu Sorriso

Antes de tudo, houve um ponto parado,

um instante suspenso, quase apagado,
onde o mundo cabia num gesto pequeno,
e o silêncio falava mais alto que o tempo.

Foi o primeiro traço, o primeiro sinal,
um começo invisível, simples, essencial,
um lugar onde o estranho deixou de o ser,
e duas solidões aprenderam a viver.

Éramos cores perdidas, sons por dizer,
culturas distantes, sem se entender,
mas no teu sorriso, tão leve, tão puro,
ergueu-se numa ponte sobre o escuro.

Não havia palavras, nem forma, nem voz,
mas algo maior ligava-nos a nós,
como se o mundo, por céleres segundos,
esquecesse as fronteiras e todos os seus muros.

A minha língua é o teu sorriso cansado,
onde encontro abrigo quando estou quebrado,
é nele que existo sem tradução,
é nele que descanso o peso do chão.

Porque há encontros que nascem do nada,
como a luz que resplandece na noite fechada,
e no ponto exato onde tudo parecia ser o fim,
foi onde começaste a fazer parte de mim.

E se um dia o tempo apagar o caminho,
se o longe vencer e eu ficar sozinho,
levo comigo esse ponto primeiro,
onde o silêncio nos fez por inteiro.

 

Aquilo que ainda arde em nós

Matilde Ramalho (9.ºC)

1.º Prémio  (Escalão C) - 8.º Concurso de Contos - Casa do Educador do Seixal (2026)
Tema: E Nós Vimos um Eucalipto a Arder

“E nós vimos um eucalipto a arder…”

Foi o Miles quem disse isso, mas a voz dele parecia vir de muito longe, como se já soubesse o que aquilo significava antes de mim.

Era fim de tarde, o céu enchia-se daqueles tons de laranja e cinzento que nunca prometem nada de bom. O cheiro chegou primeiro, um cheiro seco, pesado, e depois vimos o fumo a subir atrás do monte.

Corremos.

Não sei bem porquê. Talvez porque éramos crianças e ainda acreditávamos que chegar primeiro às coisas nos dava algum controlo sobre elas.

Quando lá chegámos, o eucalipto já ardia.

Era o nosso eucalipto. O mesmo onde tínhamos escondido uma caixa com cartas, desenhos, promessas parvas que jurámos nunca esquecer. O mesmo onde riscámos os nossos nomes com uma pedra, como se isso fosse o suficiente para nos tornar permanentes.

— A caixa… — disse eu.

O Miguel olhou para mim. Pela primeira vez, não parecia corajoso.

— Não dá.

Mas eu avancei na mesma.

O calor empurrou-me para trás como uma parede invisível. Os ramos estalavam, o fogo subia rápido, demasiado rápido. Era impossível. Mesmo assim, dei mais um passo.

— Para! — gritou ele, agarrando-me o braço.

Tentei soltar-me.

— Está tudo ali!

— Não vale a pena!

Ficámos ali, os dois, a lutar contra coisas diferentes: eu contra o fogo e ele contra mim.

E no meio do barulho das chamas, percebi uma coisa estranha.

Não era só a caixa que estava a arder.

Era a ideia de que podíamos guardar tudo para sempre.

Era a ilusão de que nada mudava.

Era aquela versão de nós que achávamos que nunca ia desaparecer.

Deixei de lutar.

O Miles não disse nada, mas não largou a minha mão. Ficámos os dois a ver o eucalipto cair, devagar, como se estivesse a desistir do próprio peso.

Naquele momento, percebi que crescer não era ganhar coisas novas.

Era aprender a perdê-las.

Dias depois, voltámos lá.

O chão estava preto, o ar ainda cheirava a cinza e o eucalipto já não passava de um tronco queimado, irreconhecível.

— Acabou — disse eu.

O Miles abanou a cabeça e apontou para o chão.

No meio das cinzas, havia um pequeno rebento verde.

Tão pequeno que quase não se via.

— Não acabou — disse ele.

Ficámos em silêncio.

E, pela primeira vez desde o incêndio, não me senti vazia. Percebi então que o fogo destrói, sim, mas também abre espaço. Que aquilo que desaparece não leva tudo com ele. E que há coisas que voltam, mesmo depois de parecer impossível.

Nem tudo o que perdemos desaparece para sempre, às vezes, é só o começo de algo novo, mesmo que mais pequeno, mais frágil… e mais verdadeiro. “E nós vimos um eucalipto a arder…”

A Força

 Laura Monteiro (7.ºF) 

2.º Prémio  (Escalão C) - 8.º Concurso de Contos - Casa do Educador do Seixal (2026)
Tema: E Nós Vimos um Eucalipto a Arder

Sofia vivia numa aldeia no norte de Portugal. Tinha doze anos e adorava correr pelos campos verdes. Crescera ali, naquela aldeia escondida, depois de os seus pais terem decidido abandonar a vida agitada da cidade, procurando a tranquilidade e a paz daquele local. Adorava ouvir o cantar dos galos e o sino da igreja que tocava todos os domingos. Adorava estar no meio da natureza, passava as tardes a correr pelos campos, com os bolsos cheios de pedrinhas, pequenos ramos e folhas secas de diferentes formas, que colecionava para o seu herbário. Os seus cabelos encaracolados tinham madeixas loiras que pareciam ter sido pintadas pelo sol. Para ela, a aldeia era um lugar mágico que partilhava com os seus melhores amigos, o Pedro e a Tuíla.

Sofia conhecia Pedro desde sempre. Mal olhava para os seus olhos cor de avelã, que pareciam guardar mil ideias ao mesmo tempo, percebia logo que viria aí uma nova aventura. Sofia adorava os seus amigos, pois com eles tinha aprendido muito. Com Pedro, que estava sempre com um sorriso contagiante e que parecia que nada o derrubava, mesmo quando as coisas pareciam desabar, aprendera o valor do otimismo e do espírito positivo. Pedro era aventureiro e impulsivo, saía muitas vezes à noite para observar os pirilampos e, de manhã bem cedo, os seres elementais, que acreditava existirem: gnomos, elfos, fadas e salamandras. Explicava às amigas que cada um estava associado a um elemento da natureza e dizia que já tinha visto uma fada azul. Tuíla vivia na aldeia há cinco anos, tinha vindo do Brasil, do Mato Grosso, com os seus pais. Como os seus avós maternos eram indígenas, misturava português com palavras em tupi, uma língua morta, mas que deixou diversas palavras utilizadas ainda hoje. Com Tuíla, tinha aprendido sobre a importância de agradecer à terra antes de colher qualquer recurso, sobre os ciclos da Lua, os quais ela dizia que governavam os ciclos da plantação e da vida e tinha aprendido também a entrançar fibras de plantas para fazer cestos e redes. Antes de apanhar uma fruta, Tuíla pedia permissão para a colher e agradecia, pois acreditava que havia uma relação de troca e não de posse. Gostava de correr descalça pelos campos, atrás de borboletas e pássaros, chamava aos pássaros Mainu, palavra tupi para beija-flor, que não existe em Portugal.

A aldeia, composta por mais ou menos 80 habitantes, tinha casas feitas de pedra escura, algumas rodeadas de muros e videiras, com caminhos estreitos e feitos de pedras irregulares. Para lá chegar era necessário atravessar o vale e passar pelo eucaliptal. Este era um dos lugares favoritos dos três amigos. Ali, havia sempre um cheiro agradável, fresco e mentolado, que parecia transmitir-lhes energia. Os eucaliptos pareciam colunas altas e esguias, como sentinelas que baloiçavam ao vento, parecendo tomar conta da entrada da aldeia. Havia um tapete macio de folhas e tiras de casca que se iam libertando das árvores e os amigos brincavam com elas, fingindo serem espadas, pois eles eram também os protetores do local. Atrás da pequena igreja existia uma floresta e ali não havia árvores direitinhas, mas troncos retorcidos e ramos cheios de nós. Para eles também era um lugar mágico e brincavam junto dos carvalhos, castanheiros e sabugueiros-brancos, cujas copas pareciam entrelaçar-se como um teto, deixando pouca luz do sol quente atravessar. As folhas secas estalavam à medida que as pisavam. Alguns troncos caídos serviam de pontes improvisadas e eles colecionavam bolotas e ouriços dos castanheiros, vendo quem conseguia apanhar mais. Mas numa tarde quente de verão, o céu escureceu de repente. Um incêndio tinha atingido uma área vizinha. Sofia, Pedro e Tuíla correram para a aldeia e Sofia gritou:

— “Ajudem, ajudem! Um fogo começou… e nós vimos um eucalipto a arder!”

Rapidamente todos os habitantes ficaram preocupados com tal acontecimento. Sabiam que numa questão de pouco tempo o incêndio poderia chegar à aldeia e tinham de estar preparados.

Enquanto os adultos se preparavam para o pior, Pedro começou a pensar nos seres elementais e decidiu que tinha de lhes pedir auxílio. Eles eram espíritos da natureza e saberiam o que fazer. Ao pensar no incêndio, compreendeu que as salamandras poderiam ajudar, já que elas são os seres elementais do fogo. Lembrou-se que habitam em vulcões, no calor do sol e nas chamas, sendo considerados os seres mais poderosos devido ao seu temperamento forte e vibrante. Chegou à conclusão de que as salamandras, associadas ao fogo, estariam agitadas e descontroladas. Disse às amigas que tinham de fazer alguma coisa para travar aquele incêndio e avisou-as para irem ao encontro dele, na floresta. Foi a casa, recolheu cinzas da lareira e depois correu até ao local combinado e espalhou as cinzas, simbolizando um fogo já apagado. Já tinha lido sobre isso nos livros da biblioteca itinerante, que ia à aldeia a cada mês, e achava que fazendo esta cerimónia poderia apaziguar o espírito das salamandras. As amigas estavam à sua espera e ele pediu-lhes ajuda para espalharem o resto das cinzas. Começou a cantar uma melodia em voz baixa, tentando hipnotizar as labaredas, que ameaçavam ao longe, enquanto invocava as salamandras. Pediu-lhes que baixassem a intensidade do fogo, mas o som de árvores a estalar ao longe e o vento pareciam abafar a sua voz. As salamandras, em vez de adormecerem, como pretendido, pareciam ter ficado ainda mais furiosas. Pedro não perdia a esperança, mas estava incrédulo pois as salamandras pareciam estar a ganhar força, ignorando os seus pedidos, parecia que a natureza não o estava a ouvir. Sofia tentou confortá-lo, ao ver o seu semblante triste. Ficou preocupada, pois desta vez ele parecia ter sido derrubado.

Depois disto, Sofia correu ao encontro da avó e contou-lhe o sucedido. Decidiu que também ela tinha de tentar fazer algo para travar aquela luta. Pediu-lhe ajuda, pois precisava de rezar e estava com medo de não saber fazê-lo. A avó sorriu, Sofia viu-lhe as rugas que lhe marcavam o rosto e o seu olhar terno.

— Não há propriamente uma fórmula para rezar, Sofia. Rezas, seguindo e escutando o teu coração. Encontra um lugar tranquilo, foca-te no que desejas, pedindo com sinceridade.

— Existe algum santo da chuva? Nós precisamos de chuva…

Sofia sentia vontade de chorar. Não sabia o que fazer para travar aquele fogo, que avançava, querendo destruir tudo o que ela amava e sentia que aquele fogo lhe dominava também o coração. Era uma dor pesada e densa, que lhe esmagava o peito e perturbava profundamente. A avó acariciou-lhe a cabeça e respondeu que São Pedro era associado, na religião católica, à chuva, como o controlador do tempo, dizia-se que podia trazer chuvas ou pará-las.

São Pedro?! Sofia arregalou os olhos. Farta de ouvir falar em São Pedro e nunca alguma vez tinha associado a este Santo esse enorme poder. Um Santo da meteorologia. Decidiu que tinha mesmo de conversar com ele. Procurou um lugar tranquilo, tal como a avó lhe aconselhara. Ajoelhou-se e dispôs-se a rezar… ficou hesitante, tinha medo de não saber rezar, mas a avó havia-lhe dito para seguir o seu coração e então foi o que fez. Com toda a concentração, dispondo as mãos em frente ao coração e fechando os olhos, invocou São Pedro e a sua ajuda, pedindo-lhe que fizesse chover, que trouxesse a bênção da chuva para aqueles terrenos que ardiam de forma assustadora e incessante.

Nessa noite na aldeia ninguém conseguiu descansar. Tinham estado todos de vigília e atentos ao avançar do fogo, sabendo que teriam de abandonar as suas casas se ele passasse a linha do vale. Ninguém o queria fazer, mas a sobrevivência é instinto. Os que tinham animais já tinham delineado um plano para os retirar, ninguém ficaria para trás.
Mal Sofia acordou, dirigiu-se à janela, esperando um milagre, esperando nuvens cinzentas carregadas de água, mas apenas vislumbrou nuvens cinzentas carregadas de fumo e sentiu um cheiro intenso a queimado. Tinha acordado várias vezes durante a noite, mas o sono e o cansaço tinham vencido e deixara-se dormir, sonhando intensamente com nuvens desafiadoras no céu, que pareciam estar numa corrida olímpica e que acabavam por chocar umas contras as outras. Sentiu-se desesperar. Teria rezado mal? Não teria orado em condições? Inspirou profundamente. Talvez São Pedro estivesse ocupado noutras localidades do país, pensou. Infelizmente havia muitos fogos a decorrer e São Pedro estaria, certamente, a apagá-los, como os heróis sem capa, que arriscavam as suas vidas para fazer frente àquele inferno na terra.

Clack! Sofia assustou-se e quase caía da cama. Olhou para a janela do quarto e compreendeu que era o Pedro, com a sua forma típica de a acordar, atirando uma pequena pedra ao vidro, o seu sinal secreto para começar mais um dia de aventuras. Levantou-se, abriu a janela e lá estava ele, com o cabelo um pouco despenteado e um sorriso tímido e com os seus olhos a transparecer o otimismo que o caracterizava.

— Sofia, quando acabares de tomar o pequeno-almoço vai ao eucaliptal. A Tuíla espera lá por nós.

Sofia comeu rapidamente alguma coisa e correu em direção aos amigos. Tuíla aguardava os. Na terra estavam colocados alguns itens, pedras dispostas em círculo e no centro uma pena de uma ave, variadas sementes e folhas de carvalho e eucalipto. Sofia compreendeu rapidamente que deveriam simbolizar a conexão com a natureza. Olhou atentamente para a amiga. A sua face morena estava pintada com padrões que imitavam gotas de chuva, os seus longos cabelos negros e lisos estavam soltos e sobre a testa tinha uma tiara feita de sementes. Tuíla tirou do bolso uma caixinha. Abriu-a e pintou os rostos dos amigos com os mesmos padrões de gotas de chuva, do outro bolso retirou duas tiaras e colocou-as também sobre as suas testas. Abraçou os dois e explicou-lhes que que iriam fazer juntos a dança da chuva.

— A natureza, no sítio de onde venho, não é apenas um recurso, mas faz parte da nossa existência. Todos fazemos parte do planeta. Temos rituais sagrados de conexão e hoje vamos fazer um em conjunto. Concordam?

Pedro e Sofia anuíram. Abraçaram um ritual que desconheciam, mas estavam convictos de que poderia resultar. Tuíla traçou um círculo no solo seco com os pés descalços, um círculo sobre o anterior círculo de pedras. Ergueu os braços em direção ao céu cinzento e cheio de fumo e começou o ritual. “Nhanderú, ouve os teus filhos”. “Traz a chuva, Deus, traz a chuva!”. Começou a cantar numa língua que nem Sofia nem Pedro entendiam, movendo-se em círculos lentos, parecendo imitar o vento. Os seus braços moviam-se, erguendo-se em direção ao céu, como se invocasse algo, os seus pés batiam no chão para chamar os espíritos da terra. Pedro e Sofia juntaram-se a ela, seguindo o seu ritmo. Deixaram-se conduzir pelos sons estranhos que ela emitia e deixaram-se embalar pelos movimentos serpenteantes, girando como um redemoinho, saltando e rodopiando. Imitaram a amiga e invocaram também o Deus que Tuíla chamava. Ficaram emocionados pelo ritual que haviam feito, pela partilha e pelo desejo comum de terminar com o fogo.

Mas o incêndio avançava, implacável, sem querer saber de cerimónias, preces divinas ou rituais sagrados. No terceiro dia avançou em direção ao eucaliptal, perante o olhar atónito dos que viviam na aldeia. Rapidamente começou a consumir as árvores. Agora não era só a visão distante de labaredas alaranjadas, era também um crepitar, um rugido que assustava e que anunciava a destruição, a morte. Mas subitamente o vento que o alimentava mudou completamente de direção e isolou os focos. O rugido calou-se aos poucos, deixando um silêncio pesado.

Os três amigos dirigiram-se ao eucaliptal quando os pais assim o autorizaram. Tinham decorrido algumas semanas. O chão estava coberto de cinzas brancas, folhas queimadas, sustendo ainda algumas árvores enegrecidas. Nada tinha caído do céu, nem uma gota. De repente ouviram Tuíla gritar, olharam para ela e viram que apontava para o chão, com os olhos bem abertos. Viram então um rebento tímido, verde, minúsculo, que brotava entre as cinzas. E mais à frente outro. Sofia lembrou-se da aula de ciências naturais e relembrou aos amigos que a professora tinha explicado que no subsolo da floresta se esconde uma espécie de internet de árvores, uma rede que as conecta a todas, partilhando água, nutrientes e até avisos. Partilhou também que a professora tinha falado sobre uma investigadora que alegava que as árvores mais antigas, as anciãs, exerciam uma função de proteção das descendentes. As árvores-mães tinham ajudado as mais novas, eram brotos das raízes profundas. As raízes dos eucaliptos tinham ajudado os mais pequeninos a sobreviver, que renasciam com esperança. Nas semanas seguintes mais rebentos surgiram. Sob a terra, a grande rede continuava a agir, com fios mágicos, numa grande teia de amizade. Um coração pulsava entre as raízes sobreviventes, mostrando que, mesmo após a destruição, é possível renascer.

Legado de sentimentos

Legado de sentimentos

Mafalda Marrucho (8.ºA)
2.º Prémio (Escalão D) 4.º Concurso de Poesia Zélia Santos
Tema: aMar Camões


Quis ser poeta
Mas cada verso que nasce
É só um reflexo do que vejo,
Do que aprendo…
E do que a vida me faz sentir

Escrevo sem querer sentir,
Mas a cada verso que escrevo
Acaba por me denunciar,
De tão molhado que está
Acaba por ser um oceano de mágoas

Eu tento caber na moldura da sociedade
Mas cada vez que tento
Morro, morro nas linhas
Naquelas nas quais não desenhei
Não escrevi, não senti..

Tentei encontrar o caminho certo,
A verdade que me guiasse,
Agindo com a esperança que fosse
Suficiente, se falhei, o peso do erro será carregado
Como se fosse o meu único legado

O único que tentei amar com a alma
Se tornou algo indescritível, mas no fim foi outro
A despedaçar o que restava do meu coração e
Agora não passa de um eco, envolvido por pó,
De erros que não foram os meus..

aMar Camões

aMar Camões

Matilde Ramalho (8.ºC)
1.º Prémio (Escalão D) 4.º Concurso de Poesia Zélia Santos
Tema: aMar Camões



Camões sonhava ao som do mar,
Na brisa leve a navegar,
Deixou-se em versos embalar,
Num brilho fundo a ressoar.

Sentiu na pele o mar bravio,
Na dor achou a sua voz,
No coração guardou um rio,
Que corre ainda dentro de nós.

O mar sussurra o seu refrão,
Num tom que o vento quis guardar,
E no coração fez-se uma canção,
Que o mundo nunca há de calar.

O mar levava seu olhar distante,
E o vento abraçava o seu querer,
Camões vive em cada instante,
E na alma nunca há de morrer.

O País dos Livres

O País dos Livres

Matilde Ramalho (8.ºC)
1.º Prémio  (Escalão C) - 7.º Concurso de Contos - Casa do Educador do Seixal (2025)
Tema: A Liberdade

Ninguém sentia dor no País dos Livres.

Ninguém sentia medo. Nem raiva. Nem dúvida. A felicidade era um direito garantido, tão essencial quanto o ar que respiramos. E quem poderia querer mais do que isso?

As pulseiras garantiam que estivéssemos sempre no caminho certo. Pequenos dispositivos, presos aos pulsos desde o nascimento, programados para nos guiar. Se um pensamento perigoso surgisse, um leve choque avisava. Se a dúvida se instalasse, uma corrente subtil trazia-nos de volta à clareza. Nada forte, nada cruel. Apenas um sussurro elétrico, gentil e paternal, a lembrar-nos do que era melhor para nós.

Eu nunca me tinha questionado. Até ao dia em que a minha pulseira parou de funcionar.

A primeira vez que aconteceu foi numa manhã qualquer, sem nada de especial. Acordei com o sol pálido a entrar pela janela, vesti o uniforme cinzento e saí para a escola como sempre. Mas, no caminho, vi algo estranho: uma rapariga parada no cruzamento.

Parada.

Ninguém parava sem motivo. Todos sabíamos o que fazer, para onde ir, o que era esperado de nós. Mas ela ficou ali, imóvel, com os olhos fixos na parede branca de um edifício. Quando passei ao lado dela, percebi que tremia. E então vi.

A sua pulseira piscava freneticamente. O visor embaciado, o som de pequenos estalidos elétricos. Algo estava errado.

Ela virou-se lentamente e olhou-me. E naquele instante, algo impossível aconteceu.

— Ajuda-me - a voz dela era um fio de vento, um segredo proibido.

O meu coração acelerou. O choque veio logo a seguir. Um aviso. O meu pensamento tinha ido longe demais.

Engoli em seco e afastei-me, o pulso ainda a arder da corrente elétrica. Mas, antes de virar a esquina, olhei para trás.

A rapariga ainda estava ali. A olhar para mim.

E depois, de repente… sorriu.

O sorriso dela perseguiu-me o dia todo.

Era impossível. Ninguém sorria assim. Não sem motivo. Não daquela forma.

Na escola tentei ignorar a inquietação. Mas, quando me sentei, percebi. A minha pulseira estava apagada. Nenhum visor. Nenhuma vibração. Nenhum choque.

Pela primeira vez na vida, os meus pensamentos eram só meus.

O professor falava sobre a História do País dos Livres — como, antes, o mundo era caótico, cheio de dor e escolhas erradas. Como tínhamos sido salvos da confusão. Mas eu não ouvia. O meu olhar pousou na janela.

A rapariga estava lá fora.

Sem pulseira.

Sem medo.

E, naquele momento, percebi. A liberdade existia. E tinham-nos mentido acerca dela.

O resto do dia foi um borrão. Palavras vazias dos professores, olhares neutros dos colegas. Tudo parecia igual, mas eu já não era o mesmo.

Quando o sinal tocou, saí sem pensar. Precisava de respostas.

A rapariga esperava-me no final da rua. Não fugiu quando me aproximei. Pelo contrário, olhou-me com uma calma impossível.

— Estás pronto para ver? - perguntou.

Engoli em seco. Não sabia o que responder.

Ela estendeu a mão.

E, naquele instante, percebi a verdade mais assustadora de todas: a liberdade não era um direito. Era uma escolha.

Olhei para o meu pulso vazio, para o caminho à minha frente, para a cidade onde tudo era perfeito e sem dor.

E depois, lentamente, aceitei a mão dela.

Corremos.

Pela primeira vez na vida, corremos sem um destino programado.

As ruas pareciam mais largas, o ar mais leve. Mas, ao longe, ouvi o primeiro alarme. Eles sabiam.

A cidade dos livres não aceitava deserções.

Virámos esquinas, saltámos muros, fugimos por entre becos estreitos. As luzes vermelhas já pintavam os céus. Mas a rapariga não parava.

E então, vi.

Uma cerca alta, enferrujada, no limite da cidade. Do outro lado, o desconhecido. O proibido.

O som dos guardas aproximava-se.

O coração batia-me no peito, a garganta seca, o corpo cansado. Mas ela olhou para mim e sorriu.

— Agora escolhes tu.

Atrás, segurança. Um mundo sem dor, sem medos, sem escolhas.

À frente, o caos. O frio. A incerteza.

Fechei os olhos. Respirei fundo.

E saltei.

O impacto foi suave. O chão era terra, não o asfalto frio da cidade. O ar era diferente. Mais puro.

Levantei-me.

E, pela primeira vez na vida, senti o vento verdadeiro no rosto. Sem choques. Sem avisos. Sem limites.

Lá em cima, o céu era mais azul.

Lá em cima, pássaros em bando voavam. Livres.

E eu soube, sem dúvida alguma, que tinha feito a escolha certa.

Pégaso

Pégaso

Laura Monteiro (6.ºH) 
1.º Prémio  (Escalão B) - 7.º Concurso de Contos - Casa do Educador do Seixal (2025)
Tema: A Liberdade

Os cavalos alados são seres imaginários que vivem nas lendas e mitos antigos, pelo menos era isso que eu ouvia contar, mas os livros que habitavam nas estantes do escritório da minha mãe continham histórias sobre florestas, fadas, coisas mágicas e misteriosas, havendo um em particular que me chamava a atenção. O título era “Pegasus” e a capa era de fundo negro com quatro estrelas prateadas brilhantes, que me faziam lembrar uma constelação. Quando perguntava à minha mãe se o podia ler, ela negava sempre, dizendo que era demasiado nova para perceber a sua mensagem… Como assim, demasiado nova? Tinha 11 anos, era já bastante crescida, como é que a minha mãe não via isso? Uma vez decidi abrir o livro e fui parar a uma página que descrevia os cavalos alados. “Animais de coração puro e com grande poder de destruição” e, mais à frente, numa outra página li que Pégaso era filho de um monstro, Medusa… penso ser esse o nome, e de um Deus, portanto era um cavalo especial que não seria montado por qualquer comum dos mortais. Já não me lembro bem, mas sei que numa luta qualquer ele ajudou a derrotar um monstro (só monstros nesta mitologia) e Zeus, o Deus dos deuses, colocou-o lá no céu, transformando-o numa constelação para que pudesse ser sempre admirado. História interessante, que ainda me fez ficar mais curiosa sobre o livro e aquilo que ele contava. A partir dali fiquei entusiasmada e ainda mais curiosa, queria descobrir que constelação era essa, por isso todas as noites ficava um bocadinho a olhar para o céu a tentar ver que constelação era mais parecida com a capa do livro.

Até que numa noite estrelada de setembro algo de mágico aconteceu: estava eu a observar o céu, como fazia todas as noites, quando de repente uma constelação pareceu-me estar a mexer-se! Mal vi isto, esfreguei bem os olhos porque só podia ser algo fruto da minha imaginação, por mais que eu esfregasse continuava a ver o mesmo, por isso saí disparada do meu quarto. Estava cheia de vontade de acordar os meus pais, mas limitei-me a pegar no Roxie, o meu velho e fiel cão. Fomos a correr para o jardim, até que me pareceu que a constelação me estava a guiar para a floresta que existia à frente da minha casa. O Roxie saiu do meu colo e foi a correr em direção à floresta. Estava com medo, mas estranhamente senti-me segura e fui atrás dele. Apesar de ser de noite, a luz da lua permitia-me ver onde me encontrava, a floresta estava repleta de árvores densas, eram tão altas que pareciam querer tocar o céu. Havia uma pequena clareira, onde o luar conseguia entrar e no centro havia um pequeno lago. Atravessei a clareira, ouvi um ruído e o Roxie começou a ladrar. Detivemo-nos, olhei para o céu atentamente e vi a constelação a mover-se e a descer do céu, parecia sibilar. De repente tudo ficou inundado de luz, tanta que me cegava. Fechei os olhos e tapei o rosto. Não conseguia aguentar tanta luz. O Roxie começou a ladrar de novo e ouvi-o a correr. Abri os olhos, tinha de o proteger. Ele estava a ir em direção ao lago. Corri até ele. No meio do lago começámos a ver algo a surgir. Parecia estar a tomar forma de uma figura. Sei que deveria estar aterrorizada, mas sentia-me serena. Vimos surgir um belo cavalo branco com uma bonita crina azul. Fiquei imóvel. Só podia estar a sonhar, mas o Roxie não parava de ladrar, portanto ele estava a ver o mesmo que eu. Trémula, peguei no Roxie ao colo e fiquei a olhar para o cavalo enquanto o vi a sair calmamente do lago. Isto só podia ser um sonho! O cavalo começou a falar.

─ Não tenham medo, sou o Pégaso e preciso da vossa ajuda.

Não sabia o que responder, aliás, acho que nem era capaz de articular uma palavra. Estava a sonhar. Só podia ser. Mas lá consegui responder.

─ Sou a Lana e este é o Roxie. Vieste do céu?! És um cavalo que fala?

─ Como te disse, sou o Pégaso. Sou um cavalo que nasceu com asas e durante muito tempo, há muito, muito tempo, fui usado por Zeus. Acabei por ser colocado no céu e transformado em constelação como forma de agradecimento. Disseram que seria admirado e olhado por toda a eternidade. Penso que acharam que seria uma recompensa justa e que eu iria ficar envaidecido. E fiquei, confesso. Mas lentamente comecei a ficar cansado, não consigo mais estar no céu. Sinto-me refém e aprisionado. Sempre tive asas e pude voar para onde queria. Preciso da minha liberdade! E por isso preciso da vossa ajuda.

─ Da nossa ajuda? Não estou a ver como vamos conseguir ajudar-te… Se estavas preso, como é que conseguiste sair da forma de constelação?

─ Uma vez, a cada cem anos, numa noite de lua cheia, consigo mover-me. Foi o único pedido que fiz. Preciso de recuperar as minhas asas. Quero ser livre, ir para onde quero. Prefiro viver como um desconhecido do que ser eternamente admirado, poder ir onde quero, ser independente, ser eu próprio.

Olhei para os olhos de Pégaso e vi que estavam marejados de lágrimas. Senti a sua profunda tristeza, mas ao mesmo tempo também a sua força e determinação. Vi o Roxie a ir ao seu encontro encostando-se a ele de forma carinhosa. O meu cão tinha aceitado o seu pedido de ajuda. Agora era eu que tinha de decidir e não tive dúvidas.

─ Está bem, vamos ajudar-te. O que temos de fazer?

─ Têm de encontrar quatro zircónias e duas águas-marinhas. As zircónias são pedras raras e muito brilhantes que podem ser encontradas na natureza. Podem procurá-las nesta floresta. Elas são parecidas com os diamantes, por isso facilmente vão identificá-las. As águas-marinhas são encontradas em grutas e podem ter cores entre o azul claro e o verde claro. Existem duas grutas nesta floresta, mas infelizmente só têm esta noite para me ajudar, quando o sol começar a nascer sou de novo levado para o céu.

Senti uma responsabilidade enorme em cima de mim, não sabia se era capaz de encontrar as seis pedras de que o Pégaso falava, mas o Roxie começou a lamber-me, como se estivesse a encorajar-me. Estava em pânico, mas tentei respirar fundo e percebi que o Pégaso apenas me pedia algo que todos, ou quase todos, damos como garantido.

─ Vamos ajudar-te - disse eu -, mas como é que vamos saber onde são as tais grutas de que falas e onde estão as pedras? Não conheço assim tão bem esta floresta, nem sabia que existiam aqui grutas!

─ Existe um livro antigo que contém indicações sobre a localização das grutas e das pedras. Dizem que é um mito, mas é a minha única esperança. Esse livro está em tua casa.

O meu coração começou a acelerar. O Pégaso sabia que a minha mãe tinha aquele livro.

─ Sim, eu sabia a quem pedir ajuda. O teu coração é puro e ainda acreditas naquilo que os adultos já não creem.

Acariciei-o e olhei-o nos olhos. Corri de volta para casa com o Roxie para ir buscar o livro e uma lanterna. Peguei numa pequena mochila, tentei ser o mais silenciosa possível, tinha vontade de pedir ajuda aos meus pais, mas não sei se eles iriam acreditar. Deixei-lhes um bilhete caso acordassem, contando-lhes tudo. Não tinha tempo a perder. Precisava de encontrar no livro a localização das tais grutas. Procurei nervosamente e tentei concentrar-me. Pareceu-me ter demorado uma eternidade, mas acabei por encontrar num capítulo uma folha parecida com um mapa. Marquei a página e corri de volta para a floresta. Mostrei ao Pégaso o livro e ele disse que era esse de que ele falava. Pus o Roxie na mochila e desatei a correr pela floresta adentro com a lanterna a iluminar o caminho. O Pégaso não podia ir, tinha de ficar dentro do lago portanto, eu e o Roxie estávamos por nossa conta. Comecei por procurar as zircónias, o mapa indicava que estavam debaixo de uma árvore em particular, um carvalho centenário, com ramos enormes que se erguiam imponentes até ao céu. Chegámos ao local e, de imediato, reconheci a árvore, era a maior de todas e parecia estar viva e cheia de energia. Tinha de escavar num ponto específico, mas lembrei-me de que não tinha trazido nada e não dava tempo para voltar a casa. O Roxie começou a ladrar, estava com a cabeça de fora, inquieto, dentro da minha mochila. Tirei-o e coloquei-o no chão e ele começou de imediato a fazer uso dos seus dotes de cão. Começou a escavar furiosamente o chão, como fazia quando era mais jovem no jardim de nossa casa. Comecei a ver algo muito brilhante no fundo da sua escavação, deviam ser as pedras. Então ajudei o Roxie, com um pau que tinha encontrado, a desenterrá-las. Eram pequenas pedras e irradiavam um brilho e uma luz incríveis. Recolhi-as e quase fiquei hipnotizada pela sua beleza. Pu-las na minha mochila.

─ Isto foi muito fácil! – disse em voz alta, olhando para o Roxie.

Voltei a abrir o livro para ver onde era a localização das grutas. Estava animada. Existiam duas grutas, uma em cada lado da floresta. Decidi ir para a da esquerda, era mais pequena do que a da direita. Ao chegar lá vi que a entrada estava ocultada por arbustos, tive de ter muito cuidado para não nos arranharmos ao passar entre eles. De acordo com o livro, esta gruta descia. Entrámos, havia muita humidade e musgo, tínhamos de ter cuidado para não escorregar. Parecia-me ouvir pingos a cair. Olhei para a frente e não existia passagem para o outro lado, senão atravessando o que parecia ser um lago. Fiquei parada durante um bom bocado, a pensar como é que poderia passar para o outro lado, até que olhei para o teto e vi que o mesmo estava cheio de estalactites. Tive uma ideia arriscada, pensei que poderia agarrar-me, passando de estalactite em estalactite. Coloquei o Roxie na mochila, tinha de ser rápida, porque certamente as minhas mãos iam escorregar. Eram poucas, mas corria o risco de alguma se partir ou de eu escorregar e de ir parar ao lago. Respirei fundo, enchi-me de coragem e saltei em direção à primeira estalactite. Consegui agarrar-me e fui avançando, sem pensar muito porque não havia tempo a perder. Quando estava a chegar à última, ouvi um ranger que me assustou, ouvi algo a partir e senti-me cair. Aterramos no chão e uma dor aguda atingiu-me no pé. Consegui levantar-me, não estava partido. O Roxie estava a ladrar.

─ Estás bem, Roxie? Magoaste-te?

Tirei-o da mochila. Ele estava bem, era um cão resistente e além disso tinha aterrado nas minhas costas. Disse-lhe que tínhamos de prosseguir e voltei a colocá-lo lá dentro e, ao fazê-lo, vi que parte da estalactite tinha caído na mochila. Vi que era mais brilhante do que as outras e, reparando bem, não era só uma parte da estalactite que lá estava, era uma das pedras de que o Pégaso precisava. Estávamos com sorte! Ou talvez não… Apercebi-me de que não podíamos voltar para trás ao ter partido aquela estalactite, por isso seguimos em frente. Fomos dar a um longo túnel muito escuro e um pouco assustador, mas o Roxie estava comigo e tínhamos a luz da lanterna para nos guiar. Senti que caminhei imenso e chegámos a uma outra gruta. Era a segunda gruta! Era muito ampla. Procurei uma saída, mas não havia. Comecei a ficar preocupada, não sabia há quantas horas estávamos lá dentro e quanto tempo faltaria para o pôr do sol. O Roxie começou a dar sinais de querer ir para o chão e começou a correr em direção a um pequeno riacho, que me tinha passado despercebido. Saltou para cima de um tronco e percebi que ele queria que o usássemos como jangada. Fui ter com ele, arrastei-o para a água, sentando-me depois lá. Lentamente começámos a mover-nos e, passado algum temp,o vi algo meio verde, meio azul, na margem do riacho. Comecei a usar as minhas mãos como remos e consegui alcançar a segunda pedra. Era a que faltava!

O riacho foi dar à floresta, tínhamos saído da gruta! Felizmente ainda era de noite. Corremos para o lago, onde estava o Pégaso. Gritei entusiasmada que tínhamos as pedras. Os seus olhos pareciam brilhar de felicidade por ver que ia estar livre dentro de algum tempo. Pediu para que fizéssemos dois triângulos. Com uma água marinha no topo de cada triângulo e duas zircónias em baixo. Formei os dois triângulos a correr. As águas-marinhas pareceram começar a desintegrar-se e a formar uma nuvem de pó brilhante. Fechei os olhos, achei que tinha feito algo de errado ao ver as pedras desfazerem-se. Lentamente voltei a abrir os olhos e vi duas asas formadas no corpo do Pégaso. As asas eram azuis e luminosas, tinham-se formado a partir das águas-marinhas. Observei o céu e vi que a constelação estava formada. As zircónias tinham ido lá parar para que a constelação continuasse a existir.

Pégaso chorava de felicidade, por vezes as lágrimas também são de alegria. Finalmente estava livre. Tinha a sua liberdade e podia voar para onde quisesse. Saiu do lago e proferiu: 

─ Estou eternamente grato. Sempre que precisares de mim, estarei cá para te ajudar. Levou-nos de volta a casa, deixando-me no meu quarto. Estava ansiosa por contar tudo aos meus pais. Olhei pela janela e vi que o Pégaso voou em direção ao céu, indo para onde desejava, sem limites e amarras.