Aquilo que ainda arde em nós

Matilde Ramalho (9.ºC)

1.º Prémio  (Escalão C) - 8.º Concurso de Contos - Casa do Educador do Seixal (2026)
Tema: E Nós Vimos um Eucalipto a Arder

“E nós vimos um eucalipto a arder…”

Foi o Miles quem disse isso, mas a voz dele parecia vir de muito longe, como se já soubesse o que aquilo significava antes de mim.

Era fim de tarde, o céu enchia-se daqueles tons de laranja e cinzento que nunca prometem nada de bom. O cheiro chegou primeiro, um cheiro seco, pesado, e depois vimos o fumo a subir atrás do monte.

Corremos.

Não sei bem porquê. Talvez porque éramos crianças e ainda acreditávamos que chegar primeiro às coisas nos dava algum controlo sobre elas.

Quando lá chegámos, o eucalipto já ardia.

Era o nosso eucalipto. O mesmo onde tínhamos escondido uma caixa com cartas, desenhos, promessas parvas que jurámos nunca esquecer. O mesmo onde riscámos os nossos nomes com uma pedra, como se isso fosse o suficiente para nos tornar permanentes.

— A caixa… — disse eu.

O Miguel olhou para mim. Pela primeira vez, não parecia corajoso.

— Não dá.

Mas eu avancei na mesma.

O calor empurrou-me para trás como uma parede invisível. Os ramos estalavam, o fogo subia rápido, demasiado rápido. Era impossível. Mesmo assim, dei mais um passo.

— Para! — gritou ele, agarrando-me o braço.

Tentei soltar-me.

— Está tudo ali!

— Não vale a pena!

Ficámos ali, os dois, a lutar contra coisas diferentes: eu contra o fogo e ele contra mim.

E no meio do barulho das chamas, percebi uma coisa estranha.

Não era só a caixa que estava a arder.

Era a ideia de que podíamos guardar tudo para sempre.

Era a ilusão de que nada mudava.

Era aquela versão de nós que achávamos que nunca ia desaparecer.

Deixei de lutar.

O Miles não disse nada, mas não largou a minha mão. Ficámos os dois a ver o eucalipto cair, devagar, como se estivesse a desistir do próprio peso.

Naquele momento, percebi que crescer não era ganhar coisas novas.

Era aprender a perdê-las.

Dias depois, voltámos lá.

O chão estava preto, o ar ainda cheirava a cinza e o eucalipto já não passava de um tronco queimado, irreconhecível.

— Acabou — disse eu.

O Miles abanou a cabeça e apontou para o chão.

No meio das cinzas, havia um pequeno rebento verde.

Tão pequeno que quase não se via.

— Não acabou — disse ele.

Ficámos em silêncio.

E, pela primeira vez desde o incêndio, não me senti vazia. Percebi então que o fogo destrói, sim, mas também abre espaço. Que aquilo que desaparece não leva tudo com ele. E que há coisas que voltam, mesmo depois de parecer impossível.

Nem tudo o que perdemos desaparece para sempre, às vezes, é só o começo de algo novo, mesmo que mais pequeno, mais frágil… e mais verdadeiro. “E nós vimos um eucalipto a arder…”